O Reinado De Um Ritmista

Seu nome de batismo era José Gomes Filho, nasceu no berço da pobreza do sertão paraibano, filho de pai oleiro (fabricante de tijolos) e mãe coquista (artista que canta e dança coco: música folclórica nordestina), seguiu os passos de sua progenitora e aprendeu noções de ritmo ainda bem jovem.

Já homem feito foi tocar percussão em orquestra e por fim tornou-se Jackson Do Pandeiro - famoso cantor popular entre as décadas de 50 e 80, dono de uma extensa discografia -, que influenciou intérpretes e compositores como Gilberto Gil, Chico Science, Zé Brown e Lenine (este último sampleou A Cantiga do Sapo na música Jack Soul Brasileiro).

A extraordinária trajetória do pequeno Zé Jack - fã do ator Jack Perrin e de filmes de faroeste - é contada com riqueza de detalhes na biografia O Rei do Ritmo. Escrito a quatro mãos, por Fernando Moura e Antonio Vicente após anos de pesquisa, o livro traça as origens e a vida do cantador e pandeirista sempre fazendo um paralelo com acontecimentos históricos de seu tempo e também se baseando em outras referências que complementam a obra. Você sabia que Bezerra Da Silva, antes de se tornar um sambista famoso no Rio de Janeiro, tocou zabumba com Jackson?

Quando que comecei a ler - a partir da indicação do meu nobilíssimo irmão - a vontade era de devorar as 396 páginas de uma vez só, mas não, preferi degustar devagar como se fosse um bom vinho e mergulhar no fantástico universo do cancioneiro popular brasileiro.

Livros como esse - presente dado por uma pessoa muito especial - deveria ser lido por todos aqueles que gostam de música (independente do rótulo que ela receba e sem preconceito) e que são ávidos por conhecimento. Do Pandeiro pode ser considerado um dos precursores do canto falado, pois era um cantador de embolada popular em sua época, e também o "pai do forró".

Tonicidade

A sílaba tônica do hip-hop sempre foi a atiTUde, ou seja, tu que rima (MC), tu que risca (DJ), tu que dança (Brêiquer), tu que desenha (Grafiteiro), tu que representa e faz acontecer, tu que prestigia e tem proceder.

A cultura hip-hop - que foi ganhando corpo e movimento ao longo de quatro décadas - tem como forte característica o "faça você mesmo", a vontade de criar e se expressar com o mínimo de recursos possíveis. De posse de duas agulhas, há anos o 'H2' é um exímio costurador de retalhos [trechos de gravações musicais ou 'samples'] a tecer sons e efeitos no vai-e-vem dos seus vinis.

O hip-hop virou tendência, pintou seu nome nos muros da história, evoluiu e hoje é estilo de vida: tem uma maneira própria de pensar, de se vestir e de se portar; é irreverente, é contundente, é contestador, é uma arma apontada para a face do torpor. O hip-hop não pára, o hip-hop só cresce, luta para quebrar as barreiras do preconceito, une os povos através de um idioma universal chamado "ritmo e poesia", põe a zona nobre dentro da periferia promovendo o encontro do negro com o branco, pois todos são manos.

Misturando ficção e romance com fatos e personalidades da vida real, o livro O Hip-Hop Está Morto! - escrito pelo artista multimídia Toni C. - narra de maneira dinâmica e esperta a história do personagem Hian Homero Pereira, o Hip-Hop em "pessoa". Tudo começa quando uma estudante de Belas Artes chamada Samara marca um encontro com 'H2', que a conduz para um passeio pelas origens do hip-hop no Brasil. A partir daí, o articulado Hian leciona com maestria a matéria "cultura de rua" para a universitária burguesa explicando, entre tantas outras coisas legais, que criar arte é como recolher "as sobras da feira, o que não presta mais para uns é o que alimenta outros". A inspiração vem do sofrimento e da opressão transformando-se em crônica ritmada.

A obra é interessante por seu didatismo (fazendo o leigo entender o que é hip-hop na essência) e pela linguagem informal muito próxima do sotaque cotidiano (que remete o leitor a um cenário urbano e periférico típico do rep brasileiro). Com um prefácio escrito pelo réper Dexter - importante figura do hip-hop nacional, hoje livre das agruras do sistema carcerário -, as 150 páginas contextualizam e baseam-se em fatos para citar vários nomes de peso que compõem os quatro elementos do 'H2' como Eli Efi (o rimador engajado), K.L. Jay (o mago dos toca-discos), Nelsão Triunfo (o dançador quebra-tudo), Os Gêmeos Gustavo & Otávio (a irmandade do grafite), além de outros.

Assim que iniciei a leitura, fiquei empolgado com o ritmo ágil do enredo e às vezes tinha a sensação de estar assistindo a um filme, tamanha eram as asas da minha imaginação; creio que daria um belo curta-metragem, se bem dirigido e produzido. Cortando para outra cena vêm as perguntas que não querem calar!!! Afinal..., o hip-hop está morto como afirma o título do livro??? Quem seriam seus maiores algozes, a fama e o dinheiro??? Cadê o espírito imortal de resistência e ativismo??? O hip-hop não jaz. Balança entre a consciência e a vaidade, mas no fundo é um guerreiro contumaz.

Agradecimentos a: Jéssica Balbino (jornalista e blogueira) e Toni C. (autor da obra). Valeu pela cortesia!


Espécie: PoDu/Tipo de vegetal: musical/Frutos: rimas e batidas/Raízes: poéticas/Procedência: Nikiti City/Desde: Dois-Zero-Zero-Seis

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