Nuvem Musical

Longa Caminhada

O sonho de todo jovem - principalmente aqueles que levam uma vida difícil em comunidades carentes - ao se apaixonar pelas rimas e pelas batidas do hip-hop é escrever as próprias letras, gravar o seu tão cobiçado disco e ser respeitado pelos veteranos. Quando ouvi pela primeira vez os toques iniciais de teclados - seguidos por riffs de guitarra - do rap Lose Yourself, as palavras proferidas na seqüência por Eminem na introdução da música pareciam ter um endereço certo: a cognição de um rapaz batalhador e cheio de idéias na cabeça (eu).

O autor dos versos, Marshall Mathers, parecia me interrogar ao dizer: "Olha, se você tivesse uma chance ou uma oportunidade para ter tudo o que você sempre quis... em um momento, você pegaria ou deixaria escapar?". O chamado musical foi a ponte que me conectou ao filme 8 Mile - Rua Das Ilusões (2002), um drama que tem a pulsação e o ritmo de um coração suburbano que bate ponto todos os dias, cumpre seu dever e no fim do expediente só quer curtir um som e se divertir - identificação imediata a partir das imagens de um trêiler de cinema.

Em 2003 (ano de lançamento no Brasil), a experiência que tive ao assistir o longa-metragem foi impactante, pois até então eu nunca tinha visto algo parecido na tela grande: a história de um rapaz pobre, vivendo em meio às dificuldades e o preconceito (seja qual for), que alimenta o desejo de mudar sua condição através da música rap, mas tendo de enfrentar a rivalidade das batalhas de rimas, a hostilidade dos desafetos e o medo do fracasso.

Dirigido por Curtis Hanson e escrito por Scott Silver, 8 Mile é parcialmente inspirado na vida do próprio Eminem que tinha uma relação familiar conturbada e - antes de alcançar o sucesso na indústria fonográfica com a ajuda do produtor Dr. Dre - ele era o que o competitivo american way of life (modo de vida americano) rotula como loser (perdedor, um zero à esquerda). Segundo o diretor, quando recebeu a proposta para realizar o filme, seu interesse era despir o artista de seu alter ego musical Slim Shady e focar no Marshall como pessoa, em sua verdadeira essência, em sua maneira de encarar a dura realidade das coisas, sentimentos, emoções, etc.

Antes do início das filmagens, Mathers passou seis semanas ensaiando com Hanson a dramaticidade necessária que deveria ser aplicada ao personagem principal e para a surpresa de todos... o rapper surpreendeu como ator; um outro fato interessante é que Lose Yourself ganhou um Oscar de melhor canção (isso mesmo, uma composição fora dos padrões tradicionais que normalmente são indicados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas!!!).

O cenário da trama é Detroit (Michigan - E.U.A.), uma cidade industrial famosa por sua produção automobilística e que já tinha sido retratada em RoboCop (1987) como um lugar de futuro decadente pretes a ser revitalizado. 8 Mile (ouça a música-tema) se passa no segundo ano da década de 2000 cujo índice real de desemprego lá era de 4,5% (hoje gira em torno de 20% ou mais), época em que começava o êxodo de pessoas, o declínio da fabricação de carros naquela região e gradualmente as montadoras foram perdendo força de mercado, transferindo-se para outros países.

Jimmy "B-Rabbit" Smith (interpretado por Eminem) é um metalúrgico que vive com a mãe (interpretada por Kim Basinger) e a querida irmãzinha numa motocasa e - na ausência da figura paterna - trabalha duro para sustentar o lar, além disso têm problemas com sua progenitora que namora justamente um ex-colega de escola do filho. Nas horas vagas ele é um rimador tentando construir com as ferramentas disponíveis (idéias, caneta, papel e sua voz) a oportunidade de mudar a sua realidade. Após se inscrever num concurso de improvisação, Rabbit trava de tanto nervosismo logo no início da competição e desce do palco vaiado pela platéia. No concorrido jogo do rap, o jovem branco é apoiado por seus amigos negros a fim de superar seus medos e tocar a carreira pra frente.

O título do filme é uma referência à estrada homônima que passa por sete bairros do subúrbio de Detroit (no qual Marshall Mathers morou na juventude) e que de certa forma representa a longa caminhada empreendida pelos trabalhadores em sua jornada diária por uma vida digna - o que não é diferente do lugar que eu ou você vive, onde as pessoas acordam cedo e seguem a  via expressa para ganhar seu pão de cada dia num grande centro populacional. Vale a pena conferir a película!

O Reinado De Um Ritmista

Seu nome de batismo era José Gomes Filho, nasceu no berço da pobreza do sertão paraibano, filho de pai oleiro (fabricante de tijolos) e mãe coquista (artista que canta e dança coco: música folclórica nordestina), seguiu os passos de sua progenitora e aprendeu noções de ritmo ainda bem jovem.

Já homem feito foi tocar percussão em orquestra e por fim tornou-se Jackson Do Pandeiro - famoso cantor popular entre as décadas de 50 e 80, dono de uma extensa discografia -, que influenciou intérpretes e compositores como Gilberto Gil, Chico Science, Zé Brown e Lenine (este último sampleou A Cantiga do Sapo na música Jack Soul Brasileiro).

A extraordinária trajetória do pequeno Zé Jack - fã do ator Jack Perrin e de filmes de faroeste - é contada com riqueza de detalhes na biografia O Rei do Ritmo. Escrito a quatro mãos, por Fernando Moura e Antonio Vicente após anos de pesquisa, o livro traça as origens e a vida do cantador e pandeirista sempre fazendo um paralelo com acontecimentos históricos de seu tempo e também se baseando em outras referências que complementam a obra. Você sabia que Bezerra Da Silva, antes de se tornar um sambista famoso no Rio de Janeiro, tocou zabumba com Jackson?

Quando que comecei a ler - a partir da indicação do meu nobilíssimo irmão - a vontade era de devorar as 396 páginas de uma vez só, mas não, preferi degustar devagar como se fosse um bom vinho e mergulhar no fantástico universo do cancioneiro popular brasileiro.

Livros como esse - presente dado por uma pessoa muito especial - deveria ser lido por todos aqueles que gostam de música (independente do rótulo que ela receba e sem preconceito) e que são ávidos por conhecimento. Do Pandeiro pode ser considerado um dos precursores do canto falado, pois era um cantador de embolada popular em sua época, e também o "pai do forró".

Tonicidade

A sílaba tônica do hip-hop sempre foi a atiTUde, ou seja, tu que rima (MC), tu que risca (DJ), tu que dança (Brêiquer), tu que desenha (Grafiteiro), tu que representa e faz acontecer, tu que prestigia e tem proceder.

A cultura hip-hop - que foi ganhando corpo e movimento ao longo de quatro décadas - tem como forte característica o "faça você mesmo", a vontade de criar e se expressar com o mínimo de recursos possíveis. De posse de duas agulhas, há anos o 'H2' é um exímio costurador de retalhos [trechos de gravações musicais ou 'samples'] a tecer sons e efeitos no vai-e-vem dos seus vinis.

O hip-hop virou tendência, pintou seu nome nos muros da história, evoluiu e hoje é estilo de vida: tem uma maneira própria de pensar, de se vestir e de se portar; é irreverente, é contundente, é contestador, é uma arma apontada para a face do torpor. O hip-hop não pára, o hip-hop só cresce, luta para quebrar as barreiras do preconceito, une os povos através de um idioma universal chamado "ritmo e poesia", põe a zona nobre dentro da periferia promovendo o encontro do negro com o branco, pois todos são manos.

Misturando ficção e romance com fatos e personalidades da vida real, o livro O Hip-Hop Está Morto! - escrito pelo artista multimídia Toni C. - narra de maneira dinâmica e esperta a história do personagem Hian Homero Pereira, o Hip-Hop em "pessoa". Tudo começa quando uma estudante de Belas Artes chamada Samara marca um encontro com 'H2', que a conduz para um passeio pelas origens do hip-hop no Brasil. A partir daí, o articulado Hian leciona com maestria a matéria "cultura de rua" para a universitária burguesa explicando, entre tantas outras coisas legais, que criar arte é como recolher "as sobras da feira, o que não presta mais para uns é o que alimenta outros". A inspiração vem do sofrimento e da opressão transformando-se em crônica ritmada.

A obra é interessante por seu didatismo (fazendo o leigo entender o que é hip-hop na essência) e pela linguagem informal muito próxima do sotaque cotidiano (que remete o leitor a um cenário urbano e periférico típico do rep brasileiro). Com um prefácio escrito pelo réper Dexter - importante figura do hip-hop nacional, hoje livre das agruras do sistema carcerário -, as 150 páginas contextualizam e baseam-se em fatos para citar vários nomes de peso que compõem os quatro elementos do 'H2' como Eli Efi (o rimador engajado), K.L. Jay (o mago dos toca-discos), Nelsão Triunfo (o dançador quebra-tudo), Os Gêmeos Gustavo & Otávio (a irmandade do grafite), além de outros.

Assim que iniciei a leitura, fiquei empolgado com o ritmo ágil do enredo e às vezes tinha a sensação de estar assistindo a um filme, tamanha eram as asas da minha imaginação; creio que daria um belo curta-metragem, se bem dirigido e produzido. Cortando para outra cena vêm as perguntas que não querem calar!!! Afinal..., o hip-hop está morto como afirma o título do livro??? Quem seriam seus maiores algozes, a fama e o dinheiro??? Cadê o espírito imortal de resistência e ativismo??? O hip-hop não jaz. Balança entre a consciência e a vaidade, mas no fundo é um guerreiro contumaz.

Agradecimentos a: Jéssica Balbino (jornalista e blogueira) e Toni C. (autor da obra). Valeu pela cortesia!


Espécie: PoDu/Tipo de vegetal: musical/Frutos: rimas e batidas/Raízes: poéticas/Procedência: Nikiti City/Desde: Dois-Zero-Zero-Seis

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