Cena do Crime: O Hip Hop Está Morto!

Quem matou o hip hop? Quem armou emboscada para o hip hop? Em que treta o hip hop se envolveu para ser alvejado à queima-roupa? Será que o hip hop simulou a própria morte para retornar mais forte?

Falando a língua do rap, o hip hop sempre foi um gênero musical contestador e cheio de atitude, seja pelos temas de suas canções ou pela postura adotada por seus artistas. Desde que o termo "hip hop" foi criado por Afrika Bambaataa em 1968, a manifestação cultural - cujos elementos são a arte do grafite, a dança break, a discotecagem ousada e criativa e o 'ritmo e poesia' - atravessou o década de 1970 restrita à juventude negra dos burgos novaiorquinos.

A partir de 1980 a música irreverente desenvolvida por rimadores e disc-jóqueis começou a chamar a atenção das gravadoras, que passaram a contratar aqueles que mais se destacavam e com maior potencial para a produção e comercialização de long-plays; o ápice da popularidade e do sucesso comercial aconteceu de 1990 em diante, época em que muitos DJs e MCs foram lançados ao estrelato. Nesse período, musicalmente o hip hop evoluiu bastante e conquistou o respeito de vários músicos, críticos e formadores de opinião - além de atrair um grande público consumidor: jovens brancos de classe média. Na mira dos holofotes da mídia, as ondas sonoras do rap propagaram-se pelo rádio, pela tevê e no cinema; rappers ficaram famosos no mundo inteiro, colheram louros, ganharam muito dinheiro e também se envolveram em graves estorvos - gerando polêmicas que os tornaram alvos da lei.

Certamente, a fase mais conturbada do hip hop - no que concerne a questões comportamentais - foi entre os anos de 1993 e 1997, momento em que havia muita rivalidade entre certos astros da rima, uma tremenda guerra de egos explícita nas letras do beligerante gangsta rap (o rep bandido). Dois ícones foram vítimas do ódio que eles pregavam: Tupac Shakur e Notorious B.I.G., ambos descansam em paz há mais de 10 anos. Já em outra vertente, positive rap (o rep positivo) pregava mensagens otimistas e bem humoradas - do qual os grupos De La Soul e A Tribe Called Quest são as referências mais citadas, cultuados até hoje. Chuck D. & Public Enemy e KRS-One & Boogie Down Productions entraram para a história do rap como artistas extremamente articulados e politizados. Em terras tupiniquins, M.V. Bill, G.O.G., Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro e Racionais MCs são nomes que alcançaram importância significativa entre os adeptos do "movimento" - deixando uma marca registrada na "calçada da fama" do rep nacional.

Seja no Brasil ou no exterior, surgiram diversos rapeadores entre o fim da década de 80 e o início de 2000, com o tempo o rap deixou de ser um produto exclusivo dos guetos e favelas, a era digital e a proliferação da rede mundial de computadores permitiram que qualquer moleque (mesmo sem o talento nato) pudesse produzir o próprio som num quarto de apartamento. Artisticamente falando, o hip hop começou a dar sinais de desgaste por volta de 2005, (apelidado de "hip-pop" por gente de ouvidos aguçados) virou música de playboy ou trilha sonora de festas em boates freqüentadas por pessoas de alto poder aquisitivo. Levando em consideração que rap é música popular, não vejo nenhum problema no fato de ter se tornado um hit e cair nas graças do povo, a verdade é que ele se "prostituiu" e o nível de criatividade baixou.

Aqui no país temos excelentes letristas e intérpretes de música rep, mas o hip hop brasileiro ainda é subserviente ao norte-americano e não atingiu seu grau máximo em originalidade. A formação da identidade nacional depende de um profundo entendimento da nossa realidade e de estarmos intimamente ligados à nossa cultura. Observando atentamente o cenário atual percebe-se que a verdadeira essência do hip hop "morreu", hoje é cada um por si e ninguém ajuda ninguém; a vaidade excessiva, o egocentrismo e a ganância deram margem para desavenças que fizeram do rep um ringue de box - levando a nocaute a autenticidade musical, vencida pelo "emcee caricato" que se veste de clichês e tira onda com seu estilo gigolô.


Espécie: PoDu/Tipo de vegetal: musical/Frutos: rimas e batidas/Raízes: poéticas/Procedência: Nikiti City/Desde: Dois-Zero-Zero-Seis

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