Retorno Às Origens

"Tudo acontece porque tem que acontecer e dessa maneira profecias vão se cumprindo. Diz a Bíblia que próximo ao fim dos tempos o fanatismo religioso faria com que homens pregassem a palavra de Deus em praças públicas, atualmente é comum assistir a farizeus vendendo "fé e salvação" pela televisão. Será que Jesus Cristo previu que algum dia seria criada uma rede virtual eletrônica de compartilhamento de informações e que através desta se tornaria popular o louvor online (e também a pornografia e o terrorismo)? Enquanto a internet é rentável para determinados grupos a mesma dá prejuízo para outros como os mercados fonográfico e cinematográfico.


Depois do advento do download e do iPod as gravadoras entraram em declínio e aos poucos as pessoas foram perdendo o interesse em freqüentar lojas de discos - que fecharam as portas. A realidade é que álbuns não são mais vendidos como antigamente e sim baixados de graça, muitos artistas independentes - que antes não teriam a menor chance de serem contratados por uma major (grande companhia de produção e gravação musicais), de tocarem na rádio ou aparecerem na T.V. - ganharam visibilidade por meio de seus sites e blogs, fecham shows por e-mail e ainda chamam atenção da grande mídia. Em outras palavras, o world wide web acabou com o glamour do showbusiness e mudou a forma de se lidar com a comercialização e produção musicais.

Conceitualmente falando pode-se dizer que houve um retorno às origens, pois até a década de 1940 as músicas eram trabalhadas em compactozinhos de vinil 45 rpm (uma canção no lado A e outra no lado B), com o surgimento do longplay a obra de um(a) cantor(a) ou banda passou a ser composta por pelo menos uma dezena de gravações em um único suporte (o discão de 33 rpm) - eis aí a consolidação de uma carreira ligada à discografia. Já na era internética um single promove uma idéia e um E.P. diz tudo. Há músicos consagrados que são contra todas essas inovações digitais e tecnológicas, mas eu pergunto: existiriam milionárias turnês mundiais se não tivessem criado os navios e os aviões? Ou seja, logística depende de transporte!"


por GUSTAVO NOBIO

Estrela Da Periferia

Rimando de maneira pouco convencional e dono de um estilo espontâneo e prosaico, o réper Sabotage (1973-2003) era um precioso diamante bruto que montava seu quebra-cabeça verbal com muita sagacidade e inteligência. Autointitulado "maestro do Canão" (favela da zona sul da cidade de São Paulo), o mano tinha um raciocínio rápido que exigia do ouvinte uma audição atenta - como quem aprecia um concerto sinfônico ligado nos movimentos do regente -, pois suas ousadas divisões silábicas e rimas assonantes transformavam seus discurso num dialeto próprio ou em enredados versos sobre banditismo.

As crônicas periféricas de Mauro Mateus dos Santos (nome de batismo) estão eternizadas no único álbum-solo lançado em vida, "Rap É Compromisso"* (2002) - produzido por D.J. Zé Gonzales, Daniel Ganjaman e R.Z.O. (Helião e Sandrão). As letras refletem o cotidiano violento e sem perspectivas vivido por tantos jovens negros que nascem e crescem nos guetos brasileiros - lugar estigmatizado pelo tráfico de drogas, confronto armado e disputa por território. O C.D. tem participações de vários emecês e cantores como Rappin Hood (na faixa "A Cultura"), Negra Li (na faixa-título*) e outros; Gustavo Black Alien, na faixa "Um Bom Lugar", e Alexandre Chorão (da banda Charlie Brown Jr.), na faixa "Cantando Pro Santo".

Em 24 de janeiro de 2003, o cumpádi Sabot foi vítima fatal da violência que narrava com tanta propriedade em seus reps - um pai de família que também era fruto de um ambiente onde convivia com "mil trutas e mil trêtas". O artista foi-se rápido feito uma estrela cadente, mas embora o homem tenha partido, nasceu um mito; tornou-se uma lenda da música rep do Brasil. Seu talento não se limitava apenas às rimas do hip hop, junto do coletivo Instituto comprovou sua versatilidade como um autêntico contador de histórias cantando na levada do samba com sutileza e malandragem. Basta ouvir "Cabeça de Nêgo" (música de Rica Amabis e Tejo Damasceno; letra de M. Mateus) e "Dama Tereza" (música e letra de M. Mateus) - faixas integrantes do álbum "Coleção Nacional", lançado pelo Selo Instituto em 2002. Sabotage agora vive no panteão, é um "b.o." para a eternidade!

Cena do Crime: O Hip Hop Está Morto!

Quem matou o hip hop? Quem armou emboscada para o hip hop? Em que treta o hip hop se envolveu para ser alvejado à queima-roupa? Será que o hip hop simulou a própria morte para retornar mais forte?

Falando a língua do rap, o hip hop sempre foi um gênero musical contestador e cheio de atitude, seja pelos temas de suas canções ou pela postura adotada por seus artistas. Desde que o termo "hip hop" foi criado por Afrika Bambaataa em 1968, a manifestação cultural - cujos elementos são a arte do grafite, a dança break, a discotecagem ousada e criativa e o 'ritmo e poesia' - atravessou o década de 1970 restrita à juventude negra dos burgos novaiorquinos.

A partir de 1980 a música irreverente desenvolvida por rimadores e disc-jóqueis começou a chamar a atenção das gravadoras, que passaram a contratar aqueles que mais se destacavam e com maior potencial para a produção e comercialização de long-plays; o ápice da popularidade e do sucesso comercial aconteceu de 1990 em diante, época em que muitos DJs e MCs foram lançados ao estrelato. Nesse período, musicalmente o hip hop evoluiu bastante e conquistou o respeito de vários músicos, críticos e formadores de opinião - além de atrair um grande público consumidor: jovens brancos de classe média. Na mira dos holofotes da mídia, as ondas sonoras do rap propagaram-se pelo rádio, pela tevê e no cinema; rappers ficaram famosos no mundo inteiro, colheram louros, ganharam muito dinheiro e também se envolveram em graves estorvos - gerando polêmicas que os tornaram alvos da lei.

Certamente, a fase mais conturbada do hip hop - no que concerne a questões comportamentais - foi entre os anos de 1993 e 1997, momento em que havia muita rivalidade entre certos astros da rima, uma tremenda guerra de egos explícita nas letras do beligerante gangsta rap (o rep bandido). Dois ícones foram vítimas do ódio que eles pregavam: Tupac Shakur e Notorious B.I.G., ambos descansam em paz há mais de 10 anos. Já em outra vertente, positive rap (o rep positivo) pregava mensagens otimistas e bem humoradas - do qual os grupos De La Soul e A Tribe Called Quest são as referências mais citadas, cultuados até hoje. Chuck D. & Public Enemy e KRS-One & Boogie Down Productions entraram para a história do rap como artistas extremamente articulados e politizados. Em terras tupiniquins, M.V. Bill, G.O.G., Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro e Racionais MCs são nomes que alcançaram importância significativa entre os adeptos do "movimento" - deixando uma marca registrada na "calçada da fama" do rep nacional.

Seja no Brasil ou no exterior, surgiram diversos rapeadores entre o fim da década de 80 e o início de 2000, com o tempo o rap deixou de ser um produto exclusivo dos guetos e favelas, a era digital e a proliferação da rede mundial de computadores permitiram que qualquer moleque (mesmo sem o talento nato) pudesse produzir o próprio som num quarto de apartamento. Artisticamente falando, o hip hop começou a dar sinais de desgaste por volta de 2005, (apelidado de "hip-pop" por gente de ouvidos aguçados) virou música de playboy ou trilha sonora de festas em boates freqüentadas por pessoas de alto poder aquisitivo. Levando em consideração que rap é música popular, não vejo nenhum problema no fato de ter se tornado um hit e cair nas graças do povo, a verdade é que ele se "prostituiu" e o nível de criatividade baixou.

Aqui no país temos excelentes letristas e intérpretes de música rep, mas o hip hop brasileiro ainda é subserviente ao norte-americano e não atingiu seu grau máximo em originalidade. A formação da identidade nacional depende de um profundo entendimento da nossa realidade e de estarmos intimamente ligados à nossa cultura. Observando atentamente o cenário atual percebe-se que a verdadeira essência do hip hop "morreu", hoje é cada um por si e ninguém ajuda ninguém; a vaidade excessiva, o egocentrismo e a ganância deram margem para desavenças que fizeram do rep um ringue de box - levando a nocaute a autenticidade musical, vencida pelo "emcee caricato" que se veste de clichês e tira onda com seu estilo gigolô.


Espécie: PoDu/Tipo de vegetal: musical/Frutos: rimas e batidas/Raízes: poéticas/Procedência: Nikiti City/Desde: Dois-Zero-Zero-Seis

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